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JRGomes_peqA uma sensibilidade especial para com a paisagem, João Reis Gomes acrescentou um desejo de conhecimento, que se mantém. Em cada reflexão, o arquitecto paisagista, com mais de quatro décadas de actividade, partilha um olhar atento e integrado sobre o país que somos e que poderíamos ser. Uma conversa com sabor a aula de ordenamento e ecologia, das boas.

Como e quando sentiu o fascínio pela paisagem?

Eu fiz a tropa na pilotagem, sobre a Ria de Aveiro. Nessa altura, de algum modo, apercebi-me de uma coisa que não fui capaz de enunciar, mas sentia, que foi aquilo que James Lovelock vinte anos depois enunciou como “Gaia”. Sobrevoando uma ria, uma pessoa que esteja atenta – e eu não sei se, como Madeirense, herdei uma sensibilidade especial a estas questões – é capaz de sentir que, o que se passa lá em baixo, se expressa como um organismo vivo. Na maré cheia, a água vai às fragmites (caniços), a seguir vai a outras canas, depois às árvores da orla, como os choupos e os freixos… Há ali um jogo a acontecer…

Mas antes da Arquitectura Paisagista experimentou a Geologia.

Estive inscrito em Geologia, mas saí. Por alturas do movimento académico de 1962, fiz parte de um grupo que escreveu uma carta repudiando o ensino que se fazia na Faculdade de Ciências e exigindo uma reforma. Para ter uma ideia, em Geologia, só era vista uma pedra no terceiro ano…

O que me tinha levado para Geologia foi o fascínio pela Geomorfologia, provavelmente relacionado com o facto de eu ser Madeirense. De facto, a Ilha da Madeira é um território onde o contraste fisiográfico é muitíssimo grande e que, em determinadas circunstâncias, até faz medo. Há ali abismos enormíssimos… A Madeira tem o segundo cabo mais alto do mundo, 500 e tal metros (quase duas vezes a Torre Eiffel) a pique sobre o mar.

Lembro-me de ter dito a um colega meu da Faculdade de Ciências que gostava de aprender não só Geomorfologia, mas a maneira como evoluem as paisagens, sendo que as paisagens na Europa estão quase todas antropomorfizadas, foram quase todas trabalhadas pelo Homem. Então esse meu colega conduziu-me ao Instituto Superior de Agronomia (ISA), onde havia o curso de Arquitectura Paisagista.

Foi lá que conheceu Francisco Caldeira Cabral, que tinha trazido o curso para Portugal.

Sim. Lembro-me de atravessar um longo corredor e de bater a uma porta. Do outro lado estava o professor Caldeira Cabral, sentado numa daquelas cadeiras giratórias dos anos quarenta. Era uma pessoa de um diálogo fantástico. Perguntou-me o que me levava ali. E eu respondi-lhe: “Gostaria de ir para a Alemanha estudar, mas não tenho dinheiro para isso. E entretanto disseram-me que o professor era a pessoa capaz de dar, cá em Portugal, a vertente da Arquitectura Paisagista que mais me interessa, que é a do Ordenamento do Território.”

Para além do pioneirismo, o que faz de Caldeira Cabral uma referência?

Era um homem verdadeiramente superior, extremamente dotado, com uma cultura geral enormíssima. Só para ter noção, foi Presidente da Associação Mundial dos Antigos Alunos Jesuítas.

Tinha um ouvido excelente, tanto para as línguas como para a música (aliás chegou a fazer parte de uma ópera dirigida pelo maestro Ivo Cruz, mais tarde director do Teatro São Carlos). Era capaz de estar uma semana em Itália e falar como um italiano. Naturalmente, falava Francês, Inglês e Espanhol. E falava Alemão como um alemão, porque estudou na Alemanha. Isso dá à pessoa uma enorme capacidade de dialogar com os seus colegas. Daí que tenha sido altamente considerado. Foi Presidente da Federação Internacional dos Arquitectos Paisagistas. A ele lhe devo também a minha preparação ecológica.

A par com a arquitectura paisagista veio a ecologia?

Além de arquitecto paisagista, sou ecologista há quase 50 anos… Eu entendo que o verdadeiro desenvolvimento do cérebro humano se faz em dialéctica com a Natureza, sobretudo através da ciência.

Do meu ponto de vista, há uma cisão epistemológica entre ciência e tecnologia. A ciência é sempre verdadeira, na medida em que é descobrir a Natureza. Mas as tecnologias, derivadas da ciência, têm de passar pelo crivo da adequação à ecoesfera. Porque senão vão produzir fenómenos de entropia, ou seja, vão desorganizar o sistema natural.

Como explica a importância do Ordenamento do Território?

Para a utilidade humana, a matriz do território expressa-se em vocações, aptidões ou meras potencialidades. Isto é válido em termos económicos e financeiros, mas não tem sido aplicado…

O não aproveitamento dos recursos naturais é um autêntico crime. Primeiro pagaram aos agricultores sobre formas encapotadas, como o set-aside, para abandonarem a terra. Depois pagaram aos donos dos barcos de pesca para renovarem a frota sem controlarem a substituição pelos novos barcos. A mão-de-obra barata foi para os bairros de lata dos arredores das cidades, para fazê-las crescer. Os “patos bravos”, que planeavam a dita recuperação económica nos anos 80, sabiam que, sem lei de arrendamento, a classe média ia a correr comprar casa que hoje já não pode pagar e tem de devolver ao banco. Entretanto aparece a triste figura de Estado “regulador”, que só regula para um lado… Como resultado, ficámos sem agricultura e com mil quilómetros de mar “a ver passar navios”, que não nossos. Temos ainda mais de 20 vezes a área de Portugal no mar, com o triste título de Zona Económica Exclusiva, já aberta aos outros pelo chamado tratado de Lisboa.

Em Portugal, a Direcção Geral do Ordenamento (a primeira chamou-se assim, as seguintes chamaram-se “do Ordenamento do Território”) foi criada quando estava no governo o arquitecto Ribeiro Telles e à imagem do que sabia o arquitecto Viana Barreto (VIII Governo Constitucional, 1981-1983).

Eu estava no Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico, de que foi presidente Fernando Pessoa, e que pretendia, em áreas de especial qualidade, valorizar as regiões, salvaguardando a Natureza, mas igualmente o património cultural. Na altura, eu era o primeiro director geral de uma área protegida (Castro Marim e Vila Real de Santo António) e, quando regressei a Lisboa, fui, pouco depois, para a Direcção Geral de Ordenamento.

O Ordenamento recuou muito desde essa primeira Direcção Geral. As posteriores têm tido pessoas que não sabem nada de ecologia e têm servido para legitimar muitos disparates.

Por exemplo?

Ainda que eu tenha muita estima pelo Dr. Paulo Lemos, actual Secretário de Estado do Ambiente e Ordenamento do Território, e pense que ele irá recuperar muitas das coisas criadas pelo arquitecto Ribeiro Telles, neste momento a lei da Reserva Ecológica Nacional (REN) está, ao que sei, suspensa… Outro exemplo é o que se tem passado em termos de volumetria de construção. Veja-se o que acontece em Cascais, com o Estoril Sol. Ao contrário do que alguns pensam, a vila ficou definitivamente empobrecida com aquela volumetria… Em alguns cantões da Suíça, quando alguém quer construir uma determinada volumetria, tem de, no terreno, armar estruturas que permitam aos vizinhos considerar a obra e o seu impacto, para poderem reclamar ou não junto da autarquia.

Quais os maiores problemas e as maiores oportunidades que temos no espaço português?

Se pensarmos em termos de território, a zona de maior valor é a zona litoral, onde as intervenções terão de ser regulamentadas com maior cuidado. Eu não admito contínuos de construção sobre a costa, como se fez em Espanha, por exemplo. Se estas são as zonas de maior valor, devem ser usufruídas pela população em geral e não apenas pelos donos da propriedade.

O comando da Europa estava a pensar construir o Arco Atlântico. O Arco Atlântico Ocidental integraria uma concentração de pessoas sobre a costa portuguesa e sobre a costa da Galiza. Existiriam outros. Eu não só estou contra isso, como considero que é perfeitamente abjecto por não prever uma consulta às populações. Não pode haver uma intenção de mudar a geografia desse modo, porque quem muda a geografia, muda a história.

A par com o aspecto da paisagem, há toda uma questão que tem a ver com a ambiência do mar. É nas orlas – e a costa é a orla por excelência – que há maiores fluxos energéticos entre a água e a terra e a terra e a água. Daqui resultam as brisas do mar, que ocorrem fundamentalmente de manhã, e as brisas de terra, que se verificam fundamentalmente ao fim da tarde.

Também nos vales isto se reveste de enorme importância. Do mesmo modo e pelos mesmos motivos, aí sopram ventos com uma certa intensidade. Se obstruirmos os vales, a drenagem atmosférica é prejudicada. E uma cidade precisa de drenagem atmosférica, como o homem precisa de pão para a boca. Depois, sendo zonas onde se concentra água, um elemento termo-regulador, os vales têm também influência na temperatura de uma cidade. Porque é que os árabes foram mestres na água? Ou porque é que em Itália há muitíssimas fontes nas cidades? Para amenizar as temperaturas, evitar os extremos.

É tempo de reconsiderar, pois, a aparecer dinheiro, voltam os chamados Projectos de Interesse Nacional (PIN), apresentados como os investimentos económicos de que o país tanto precisa. E o louvor que fiz ao Secretário de Estado do Ambiente e do Ordenamento do Território, não quer dizer que ele, sozinho, sem uma massa crítica significativa, possa aguentar a avalanche de pressões…

A questão da obstrução dos vales está também relacionada com a construção em leito de cheia, que aumenta o impacto das chuvas. É inevitável lembrar a catástrofe, de 2010, na Madeira…

As linhas de água têm de ter a sua zona de protecção, por causa das cheias. Quando a linha de água é flutuável, a protecção deverá ser de 50 metros. Quando não é flutuável, deverá ser de 10 metros.

Eu fiz parte de uma equipa de trabalho que fez a marcação dos leitos de cheia das 13 ribeiras, com expressão, que vão da zona de Alcântara até Cascais. As regras de ordenamento estavam a ser esquecidas e os construtores estavam a aproveitar-se…

O leito de cheia não deve estar obstruído. Os acidente na Madeira tiveram muito a ver com isso. Na Suíça, por exemplo, hoje estão as renaturalizar ribeiros que tinham sido impermeabilizados…

Em apresentações que têm realizado associa o ecodesenvolvimento à independência de Portugal. Como descreve o país que poderíamos ser?

Eu acho que o nosso país poderia ser auto-suficiente sob o ponto de vista alimentar, por exemplo. Podíamos ser um país onde a terra fosse utilizada. Para isso era preciso que os governos centrais ajudassem as pessoas a ficar na terra, com novos meios e tecnologias.

Eu trabalhei na questão dos telecentros rurais, mas politicamente não quiseram avançar com isso. Era uma figura que teve origem na Suécia e que assentava na disseminação das tecnologias da informação junto das populações das zonas rurais. Assim poder-se-ia, por exemplo, informar sobre os preços de produtos neste ou naquele lugar, dar alguma formação sobre agricultura, ajudar o comércio, possibilitar a constituição de cooperativas de produção e de distribuição… Esse tipo de organização permitiria ao consumidor uma vida mais barata e ao agricultor uma maior qualidade.

PERFIL João Reis Gomes – Nasceu em S. Martinho, Funchal, em 1937. Foi o primeiro aluno, sem formação agronómica, a tirar o Curso Livre de Arquitectura Paisagista, em Portugal. Findo o curso, trabalhou na Direcção Geral dos Serviços de Urbanização. Foi director da primeira área protegida portuguesa – a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António. Fez parte do Movimento Ecologista Português, fundado por Afonso Cautela, em 1974; foi co-redactor do Manifesto Alternativo, em 1981; e apoiou um movimento pró-candidatura do ecologista José Carlos Marques às eleições presidenciais de 1991. Exerceu funções na Direcção Geral do Ordenamento, no Instituto da Água e no Instituto de Resíduos. Tem desenvolvido apresentações e palestras sobre Ecodesenvolvimento e Ordenamento do Território.

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2 thoughts on ““Portugal podia ser um país onde a terra fosse utilizada”

  1. Parabéns ao arquitecto João Reis Gomes pelo seu trabalho! Portugal precisa muito de pessoas com esta sabedoria e empenho para tornar o nosso país mais saudável. Parabéns Marta pela grande entrevista e partilha de pessoas com valor!

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