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helena-marujo-3-cred_-joao-cupertino-230Optimismo e bem-estar são temas de investigação de Helena Marujo. Em tempos de dificuldade para a generalidade dos portugueses, a especialista em Psicologia Positiva fala do seu trabalho e do modo como olhamos as nossas vidas. E salienta a importância das relações na construção de existências mais felizes.

O que é a Psicologia Positiva?

É um domínio dentro da Ciência Psicológica, que se dedica a estudar a experiência humana óptima, ou seja, as pessoas quando estão no seu melhor, o bem-estar e a felicidade. Este tinha sido um domínio muito pouco potenciado ao longo de mais de 100 anos de experiência psicológica. A Psicologia também tinha como meta fazer o estudo do bom, do belo e do bem, mas a segunda guerra mundial e os seus impactos acabaram por encaminhá-la para um investimento grande nos processos de remediação do sofrimento humano. Avançou-se imenso em termos de conhecimento nessas áreas e hoje podemos ajudar quem vive experiências de dor emocional e relacional. Mas acabou por não se dar continuidade ao trabalho de alguns humanistas e investigadores, como Abraham Maslow, Carl Rogers e mesmo William James, que, de algum modo, já falavam numa abordagem positiva aos aspectos psicológicos. Quando Martin Seligman, um professor da Universidade da Pensilvânia, que toda a vida tinha estudado a depressão, assume a presidência da American Psychological Association, em 1998, decide reequilibrar este processo, investindo na investigação dos aspectos, individuais e sociais, sinalizadores do melhor da vida.

E, no seu percurso, como surgiu a Psicologia Positiva?

Em 1999, publiquei, com o meu colega e esposo Luís Miguel Neto e com Fátima Perloiro, o livro “Educar o para o Optimismo”. Esta publicação veio na sequência do estudo do meu doutoramento, sobre a depressão em crianças e adolescentes, realizado, ao longo de três anos, junto de 2200 crianças e jovens, de colégios privados na região de Lisboa. Nele encontrei resultados assustadores – medo do futuro, ansiedade e ideias suicidas –  e níveis muito mais altos de depressão que os mostrados em estudos semelhantes, realizados em Espanha e nos Estados Unidos.

Começámos então a procurar razões para estes resultados, ao nível da nossa cultura, e a pensar o que deveríamos fazer junto dos educadores para alterar o panorama.

Estudámos a história nacional, cruzando-nos com casos como o dos Vencidos da Vida – grupo formado por personalidades de relevo da vida cultural do séc. XIX, que assumiu esta designação por ter renunciado às aspirações transformistas da juventude – e com as perspectivas do escritor e filósofo Unamuno, sobre Portugal, que entendia ser um “país de suicidas”. E fomos um bocadinho mais longe. Colocámos a hipótese – estamos até a escrever um artigo científico sobre isso – de o Terremoto de Lisboa ter sido um ponto de viragem na nossa cultura. No livro “O Mal no Pensamento Moderno”, Susan Nieman, uma filosofa norte-americana, tem a tese clara de que o terramoto de Lisboa é o fim do optimismo na cultura ocidental.

Interessou-nos estudar um conjunto de características nacionais – os conceitos de destino, de imprevisibilidade, de incapacidade de saborear os momentos bons, por causa da sensação de desgraça iminente – mas sobretudo descobrir o que podemos fazer. Lançámos o livro, que vai agora para a 20ª edição, e fizemos largas centenas de acções de formação pelo país e no estrangeiro, em escolas, hospitais e empresas, sobre Educação para o Optimismo. Depois estudámos outras áreas, tendo-nos debruçado ultimamente, em especial, sobre a felicidade.

É preciso mudarmos a nossa cultura nacional para sermos mais felizes?

Não me interessa ou não é minha intenção mudar a cultura – a cultura portuguesa tem muitas coisas fascinantes e interessantíssimas – mas que estejamos mais conscientes da cultura que construímos diariamente, nas nossas escolas, na política, na comunicação social…

Há investigadores a estudar sobre isto. Roy Baumeister diz-nos que o aumento da consciência sobre as nossas vidas é uma condição sine qua non para a felicidade, o que é um bocadinho contrário à ideia do senso comum de que são mais felizes os que sabem menos. Obviamente, é mais fácil manipular pessoas menos informadas, com menos capacidade para pensar a vida e com menos consciência sobre o que são e o que fazem. Por outro lado, ao aumentarmos os graus de liberdade complicamos-nos a vida, no sentido em que temos de escolher mais. Mas se calhar também é isso de que precisamos, em vez de continuarmos com os mesmos padrões de sempre, sem pensar se são aqueles que queremos. Se forem, então que seja uma atitude de liberdade de decisão e não uma mera reprodução.

O diccionário define felicidade como “Concurso de circunstâncias que causam ventura; sorte; bom êxito”. Como a define e com a explica a Psicologia Positiva?

Posso começar por responder com uma definição de felicidade pública, proposta por economistas, na segunda metade do século XVII. Eles acreditavam que a felicidade pública implicava a existência de três elementos essenciais: o desenvolvimento económico, para terminar com a condição de escravidão, ou seja, com a miséria e pobreza; a promoção do florescimento das virtudes; e um bem comum e relacional.

Mas, do ponto de vista individual, Martin Seligman define a felicidade como sendo composta por cinco aspectos: emoções positivas (a felicidade hedónica, ligada ao prazer); relações positivas; vidas comprometidas; o atingimento de sucessos ou metas; e um sentido de vida (a felicidade enquanto construção humana, também chamada de eudaimónica). No estudo que fizemos com o Instituto da Felicidade, a resposta mais unânime dos portugueses foi a de considerarem que o país e o contexto não lhes davam condições para colocarem em prática o seu máximo potencial, ou seja, inviabilizavam a possibilidade de vidas comprometidas. As pessoas sentem que têm talentos e capacidades que não são aproveitados.

Que outras conclusões foi possível retirar?

Ao que parece, temos tendência para sermos menos bons na felicidade hedónica. É-nos mais difícil focarmo-nos no prazer e nas emoções positivas. Fazemos crescer mais o que não funciona, sendo especialmente críticos em relação ao exterior, aos outros. Por outro lado, descobrimos que na felicidade eudaimónica, a felicidade enquanto construção de um sentido da vida, os portugueses têm resultados acima da média. Respondem mais positivamente e em maior quantidade a questões como “os problemas servem para me desenvolver enquanto pessoa”, “a minha vida tem um propósito”. E encaram as relações interpessoais como muito importantes.

Noutro estudo, da New Economics Foundation, verifica-se que, quando se avalia o bem-estar geral, os portugueses situam-se abaixo da média dos países europeus, mas quando as perguntas são sobre bem-estar social, os resultados disparam. Portanto há aqui uma força importante, que é de valorizar: a importância que damos às relações interpessoais.

É feliz quem quer?

Não. Primeiro há que ter assegurados a dignidade e o mínimo das condições materiais e, em segundo lugar, introduzir consciencialização.

Num estudo feito pela Gallup Internacional, junto de 350 mil pessoas, em 132 países, atingindo uma representatividade de cerca de 90% da população mundial, surgiram três factores que as pessoas nomeavam como essenciais para o seu bem-estar. Primeiro, ter com quem contar. Segundo, ter liberdade e autonomia. E em terceiro lugar, um factor fascinante a meu ver, ter aprendido algo recentemente.

Portanto, se queremos aumentar a felicidade das pessoas, neste momento, temos mesmo de investir nos bens relacionais, de criar redes, de nos unir… No seu livro “A ferida do outro”, o economista italiano Luigino Bruni, diz-nos que estamos cada vez mais sozinhos porque evitamos a dor potencial que advém da relações. Mas temos de nos lembrar que é também aí que vamos buscar as bênçãos. A relação com o outro é sempre a ferida e a bênção.

Quem são os maiores amigos e os maiores inimigos da felicidade?

A pobreza material é um inimigo, mas a riqueza também. A comparação social é um inimigo enorme e muito frequente nas sociedades actuais, tal como a desconfiança interpessoal, matéria sobre a qual existem graves problemas a nível nacional. Temos indicadores muito baixos de confiança uns nos outros e isso está associado a outro grande inimigo da felicidade, que é a desigualdade.

São amigos a democracia participativa, os contextos onde seja possível o contacto com a Natureza e a capacidade de pensar do ponto de vista espiritual, não necessariamente religioso. Os estudos têm mostrado que o casamento e a idade também são amigos da felicidade, tal como a saúde subjectiva, ou seja, a saúde que se sente que se tem. Depois há amigos tão simples como trabalhar ao pé de casa, por exemplo.

Os tempos são de dificuldade para a generalidade dos cidadãos. Como podemos vivê-los de um modo mais feliz?

Centrando-nos em soluções, mais do que em problemas, e tendo espaço para novas gramáticas. Ao mesmo tempo que falamos de défice, devemos falar de abundância, de talento, de virtudes, de relações, de capacidades de criar redes. Depois, devemos fazer perguntas, pensar quais são as questões que fazem e diferença.

É também importante celebrar o que vamos conseguindo, sem acharmos que os sinais exteriores de bem-estar interior são ameaçadores e devem ser silenciados. E, por fim, manter uma visão de continuidade da vida, para verificar que a história da humanidade está cheia de crises e que conseguimos ultrapassá-las.

A história por trás da Psicologia Positiva A Psicologia Positiva, enquanto novo domínio formal, está associada à figura de Martin Seligman e à sua decisão de apoiar a investigação científica dos aspectos mais positivos da vida, durante a presidência da American Psychological Association. Curiosamente, essa decisão terá surgido depois de um episódio familiar, protagonizado pela sua filha Nicki, na época com cinco anos. Um dia, o psicólogo estava a cuidar do seu jardim de rosas e Nicki andava junto dele a dançar, enquanto atirava ervas e terra ao ar. “Estás-me a incomodar. Pára com isso!” ia dizendo Martin Seligman, sem resultados, até perder a paciência e gritar com a filha. Então, a menina parou e, muito séria, disse: “Pai, quero falar contigo. Eu costumava resmungar muito. Mas quando fiz cinco anos e apaguei as velas do bolo, decidi que ia deixar de rabugenta. Eu tenho cinco anos, tu tens 50, também deves ser capaz!”

PERFIL Helena Marujo – Doutorada em Psicologia, pela Faculdade de Psicologia na Universidade de Lisboa, é actualmente professora auxiliar convidada do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). Tem como principal área de investigação a Psicologia Positiva, sendo membro fundador da Associação Portuguesa de Estudos e Intervenções em Psicologia Positiva (APEIPP) e do Board of Directors do International Positive Psychology Association. É formadora creditada e autora de diversos artigos científicos, manuais e livros de divulgação. É co-autora, com a psicóloga Catarina Rivero, de “Positiva-Mente”, editado em 2011, pela Esfera dos Livros.

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2 thoughts on ““Se queremos aumentar a felicidade, temos de nos unir”

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